domingo, 30 de março de 2008

acrofobia

acrofobia

acrofobia= medo mórbido das alturas

Confesso a vertigem,

apesar da vida plana que levo.

É que este andar direito é um voo picado

no fim.

A acrofobia é um nome simpático

para uma sina tão inclemente.

 

Constantino Alves

acrobata

acrobat_picasso

Pablo Picasso 

 

Pablo Picasso segreda-me acrobata,

talvez pelo sensacional, pelo inverosímil

da decomposição.

Talvez ele fosse também um acrobata,

de mais uma deconstrução,

que pela anulação dos contrários,

fez o portento da obra de arte completa.

E nós que a vemos, em que lugar do Olimpo nos sentaremos?

 

 

Constantino Alves

acordeão

acordeao

a pequena festa em turbina,

as maçãs do rosto rosadas, os seios

saltitantes, os pequenos pés rápidos,

apenas um único homem cinzento

provoca a romaria,

com aquele magnífico coração nos dedos,

/cardia /por toda a praça, acordeão.

 

Constantino Alves

ácopo

ácopo= pedra especial utilizada para afastar o cansaço

CM596

esta persistência de ver,

a circunstância repetida de olhar,

é uma pergunta original.

Pode o cansaço tentar demover,

só a resposta natural será o ácopo

desta dúvida irritante,

não saber.

 

Constantino Alves

acidentologia

user_behaviour

estudando a ocorrência com detalhe,

dir-se-à fortuita, pela causa não ser intencional.

Contudo o homem cá está, de corpo vivo, pensante.

Por certo o criador não se demitiu,

estará ocupado em inventar verdades em linhas tortas.

Constantino Alves

achadouro

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achei aqui todas as pedras já extintas

pelo homem, incluindo as almas,

que depois da invenção dos /juros/

nunca mais tiveram esse nome.

Modernamente dá-se esse nome a um ar

que se deita em palavras,

num alívio.

Este achadouro foi muito procurado  e só tenho minutos

para compôr uma enciclopédia de poemas.

Depois outro usuário lhe dará outro fim mais /actualizado/

 

 

Constantino Alves

aceno

090707-1448-olhar1

 

Acenamos por vezes aos outros  com palavras,

o explícito, fica implícito,

mesmo assim é um convite naufragado,

a coragem do gesto em aceno é muito mais corpo

e fica perto do amor.

 

Constantino Alves

abulia

abulia=incapacidade de tomar decisões

mafaldastencil[1]

Lê, pensa e actua.

Não te esqueças de sentir.

É desta última talvez, que o abúlico não esquece.

Lê, pensa e actua?

 

 

Constantino Alves

absolvição

secuestro

as palavras como a água,

lavam coisas ou pecados,

pudessem os actos serem irmãos

dessas águas.

Talvez as vítimas em comiseração,

perdoassem.

 

 

Constantino Alves

abracadabra

abracadabra= palavra cabalística que os antigos atríbuiam a virtude de curar moléstias.

abracadabra

Toda a coisa tem uma chave,

nem sempre a palavra a abre.

A natureza nem sempre cumpre com o Verbo,

é mais precisa,

talvez descendente de outro Determinante,

um Alquimista complexo, cliente de outro/Psi/ de que

não conhecemos referência.

Eu, que sou dos verbos, acredito que seja o tal Deus palavroso inverosímil e inquieto, indefínivel, à sua escala omnipotente.

 

 

Constantino Alves

sábado, 29 de março de 2008

abraço

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é tão raro

que o utilizamos sempre que podemos.

no entanto, escasso.

por essa virtude se pode perpetuar o outro.

por ser tão frágil  /ter/.

 

Constantino Alves

aborígene

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aborígene=autóctene de uma determinada região

Afinal acabamos por ser daqui,

apesar dos sonhos, das palavras viajantes, dos verbos.

Há qualquer matéria para além da gravidade,

que nos vincula à terra,

talvez o azimute do sentimento às coisas,

não seja só álgebra ou geometria.

quem sabe haja transumância entre sólidos vizinhos.

 

Constantino Alves

abóbada

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Qual matemática superior,

um verbo em palato,

abóbada, autêntica palavra-corpo.

 

Constantino Alves

ablução

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farei a minha ablução a uma palavra,

pelo respeito à sua pureza,

cheia de corpo mas só ideia,

mais limpa que a voz.

Constantino Alves

ábaco

abaco

Podes contar por missangas

o que deixas aqui.

Não deixas mais do que quiseste entregar.

Se quiseres devolvo-te o amor,

mas isso já não queres...

Constantino Alves

a



esse /a/ translúcido,
esse inicial aberto,
essa passagem da voz,
é o idioma do poeta,
sinal pequeno do tudo.

Constantino Alves